A História do Óculos

Ao aumentar a capacidade visual, a invenção revolucionou a vida humana. Paralelamente, as lentes permitiram descobrir novos mundos - o microcosmo dos micróbios, vírus e átomos, e o macrocosmo das galáxias e constelações

Mais cedo ou mais tarde, a quase totalidade da população mundial acabará necessitando usar óculos em alguma fase de sua vida. Mesmo com o avanço da oftalmologia, com a invenção das lentes de contato e as últimas conquistas da cirurgia refrativa, os óculos continuam sendo o instrumento mais usado, mais seguro e mais prático para a humanidade enxergar melhor.

Recente estudo apresentado no 103rd Annual Meeting of the American Academy of Ophthalmology e no XXII Congress of the Pan American Association of Ophthalmology realizado em Orlando, EUA, em outubro de 1999, revela que 60% da população dos Estados Unidos da América do Norte, cerca de 159 milhões de pessoas, usam óculos sob prescrição médica. O estudo mostra ainda que 30% da renda total recebida pelos médicos oftalmologistas americanos é proveniente da atividade relacionada com os óculos e lentes de contato. Fato que determina esta atividade como sua principal fonte de renda em comparação com a renda atribuída ao tratamento de doenças oculares (21%), cirurgia, incluindo a moderna cirurgia refrativa (23%), e outras atividades, tais como ensino, pesquisa, administração, perícias, etc., somando em conjunto 26%.

As lentes transformaram a ciência e a cultura através do microscópio e do telescópio, possibilitando o descobrimento de outros mundos: o microcosmo dos micróbios, vírus e átomos e o macrocosmo das longínquas galáxias. A invenção dos óculos revolucionou a vida dos homens possibilitando um aumento na sua capacidade visual.

Primeiro como Amuletos

Desde a Antiguidade, a história do homem na Terra é marcada por tentativas de enxergar mais e melhor. Os primeiros registros históricos sobre a existência de lentes rudimentares foram escritos na China pelo filósofo Confúcio, em 500 a.C. Essas lentes primitivas eram feitas de cristais com um polimento tosco. Não eram óculos propriamente ditos, como os conhecemos hoje em dia. Acreditava-se que tinham várias propriedades medicinais além de prolongar a vida das pessoas. Tinham a força do amuleto mas ainda eram de uso visual limitado.

Mesmo durante o Império Romano ainda não existiam óculos. Marcus Tulius Cícero, senador de Roma, grande escritor e eloqüente orador, em 62 a.C. escreveu uma carta a seu amigo Atticus, mencionando que a idade estava chegando e sua visão vinha diminuindo a ponto de já não conseguir mais ler sozinho. A solução encontrada foi que Cícero teve que comprar escravos especialmente para ler.

Embora Ptolomeu, no Egito, descobrisse leis ópticas fundamentais da refração da luz por volta do ano 150 da era cristã, somente na Idade Média os monges começaram a desenvolver a chamada "pedra de leitura", segundo as teorias mais aperfeiçoadas do matemático árabe Alhazen, que viveu em Basra aproximadamente no ano 1000 depois de Cristo. Essa pedra funcionava como uma lupa primitiva que aumentava o tamanho das letras, e era composta basicamente de cristal de quartzo hialino ou de pedras semipreciosas que tinham lapidação e polimento. Uma das pedras mais cobiçadas era o berilo por seu brilho, beleza e grande transparência. Aliás, foi do seu nome que derivou a palavra "brilho".

Em 1267, o monge franciscano britânico Roger Bacon, conhecido como "Doutor admirável", conseguiu demonstrar que pessoas com deficiência visual conseguiam ver melhor através de lentes lapidadas, levando ao papa um exemplar de uma dessas lentes de leitura.

Naquela época, os antigos viajantes que se aventuravam e conseguiam retornar vivos das viagens ao Extremo Oriente contavam que os chineses já faziam uso de óculos no início do primeiro milênio da era cristã. Marco Polo relatou em seu livro sobre suas viagens ao Oriente que óculos eram de uso corrente na China, na corte de Kublai Khan, por volta do ano 1275 a.d.

Entretanto, a verdadeira origem dos óculos tem levantado muitas conjecturas e controvérsias e nem todas são baseadas em evidências históricas precisas. De fato, não existiu um único inventor dos óculos, mas inúmeras pessoas anônimas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, que foram contribuindo aos poucos, ao longo dos anos, para aperfeiçoar o valioso instrumento visual para a humanidade.

Tudo indica que uma armação montada com um par de lentes para se colocar na frente dos olhos, com a finalidade de leitura, surgiu em Veneza entre 1270 e 1280, pois essa próspera cidade e a vizinha ilha de Murano dominavam o comércio de vidro naquela época. Ao mesmo tempo também, no Extremo Oriente, desenvolvia-se na China o aperfeiçoamento dos óculos, pois o conhecimento se intercambiava depressa ao longo das rotas de comércio na Ásia Central abertas por Genghis Khan.

É interessante citar que na igreja Santa Maria Maggiore de Florença, no túmulo de Salvino d'Armato, morto em 1317, está gravada na sua lápide a seguinte inscrição: "Aqui jaz Salvino d'Armato, de Florença, Inventor dos óculos; Deus perdoe seus pecados. Anno D. MCCCXVII".

No entanto essa paternidade é controversa, a começar pela construção do seu próprio túmulo com um busto de um desconhecido greco-romano do ano 100 a.d.

Jóias como Símbolo do Saber

Na Renascença, o desenvolvimento intelectual e cultural aumentou de forma muito acentuada paralelamente ao desenvolvimento técnico e científico. E certamente existiram dois grandes marcos nessa evolução: um foi a invenção tipográfica por Gutenberg em 1440, e o outro a invenção dos óculos que possibilitou a leitura das letras pequeninas que surgiram com a imprensa. Naquela época, usar óculos significava ter um grande saber, denotava cultura e erudição e era símbolo de status e nobreza. Na Europa daqueles tempos, os pioneiros na fabricação de lentes de cristal lapidado e vidros ópticos foram os vidreiros de Veneza, ficando famosa a oficina de arte vidreira de Murano. Lá foram produzidas as primeiras lentes lapidadas para a civilização ocidental enxergar melhor. Aos poucos esse conhecimento foi se difundindo e se estabelecendo em outras cidades da Europa, tais como Nuremberg e Augsburg na Alemanha, e Rouen e Flandres na França.

Entretanto, não se encontravam óculos por toda parte. Eles eram raros, custavam caríssimo e eram considerados verdadeiras jóias. Seu valor era tal que eram relacionados em inventários de bens de família e deixados em testamentos como herança, assim como fez Carlos V, O Sábio, rei da França (1364-1380).

Existe um registro histórico na China, durante a dinastia Ming (1260-1368), segundo o qual um rico senhor trocou uma parelha de finos cavalos de raça por um par de óculos.

Uma dessas primeiras pedras de leitura é representada fielmente no livro e no filme de Umberto Eco O Nome da Rosa, em que ele mostra bem o grande valor e poder que essas pedras tinham naquela época.

No início eles começaram a ser usados somente para a visão de perto, para leitura, para corrigir a presbiopia ou "vista cansada". Aos poucos passaram a ser usados também para a correção da hipermetropia. Entretanto, o primeiro registro do uso para a miopia só foi feito em 1441 por Nicolaus Cusanus em seu livro De Berillo. Já a correção do astigmatismo, por meio de lentes cilíndricas, só aconteceu bem mais tarde, na Inglaterra, em 1827. Antes disso, em 1611, Kepler já havia introduzido o uso de prismas. E, em 1784, Benjamin Franklin, o famoso estadista americano, que também era inventor, cientista e filósofo, inventou os bifocais, que tanto benefícios trouxeram às gerações futuras. A introdução dos multifocais só foi possível há relativamente pouco tempo, com o avanço da tecnologia de fabricação de lentes nos anos 70.

A primazia das idéias relativas às lentes de contato está registrada nos escritos de Leonardo da Vinci (1452-1519). Apesar de outros antigos estudos teóricos realizados por René Descartes em 1637 e Thomas Young em 1827, a lente de contato só saiu do anonimato das pesquisas e se popularizou após 1950.

Na Literatura e nas Artes

A primeira manifestação dos óculos nas artes é um quadro de Tommoso da Morena, datado de 1352, que está na Igreja de São Nicolo, em Treviso, na Itália. Representa o rosto do cardeal Hugo de Treviso usando um daqueles óculos primitivos que consistiam de duas lentes redondas com aros de metal unidas por um pino central em cima do dorso do nariz.

São Jerônimo, padroeiro dos óticos, tradutor da Bíblia para a língua latina, conhecida como Vulgata, sempre é representado junto com um leão, uma caveira e um par de óculos. Entretanto essas pinturas, realizadas em datas bem posteriores, têm um caráter simbólico, pois na época em que viveu (347-420) os óculos não tinham sido ainda inventados. Na linguagem simbólica dos místicos cristãos podemos entender o leão como representando a força e a coragem, a caveira simbolizando a mortalidade do homem carnal e os óculos significando a visão, tanto a exterior, dos olhos como órgãos dos sentidos, quanto a visão interior da consciência.

Na literatura, o livro mais antigo que trata dos óculos é o trabalho de Nicolaus Cusanus, publicado em 1441, intitulado De berillo. Depois vem o Uso de los antojos de Benito Daça de Valdes (Sevilha, 1623). E L'occhiale all'occhio de Carlo Antonio Manzini (Bolonha, 1660).

Os óculos não nasceram com este aspecto que hoje conhecemos. Percorreram um longo caminho, modificando-se aos poucos até chegar na atual forma.

Os primeiros óculos eram feitos de uma só lente. Tanto que a palavra "óculo" significa apenas uma lente como um monóculo. O instrumento completo com duas lentes montadas em uma armação no rosto é denominado um "par de óculos" ou abreviadamente "óculos" no plural.

Os primeiros modelos eram constituídos por duas lentes presas no meio por um rebite, que se abriam ou fechavam em forma de V, apoiando-se no dorso do nariz, sem as hastes laterais.

A mais antiga pintura de um par de óculos, datada de 1352, mostra duas lentes redondas como se fossem dois monóculos de metal presos no centro acima do nariz por um pino, ficando apoiado no dorso nasal.

Os óculos considerados mais antigos ainda existentes encontram-se preservados no Museu de Nuremberg e pertenceram ao burgomestre de Nuremberg, que viveu de 1470 a 1530. São constituídos de duas lentes biconvexas redondas unidas por uma sólida peça de couro.

Essas armações de couro foram sendo substituídas aos poucos por outros materiais: madeira, chifre, casca de tartaruga, osso, marfim e metais, tais como ferro, prata, ouro e outras ligas. Novos materiais foram desenvolvidos, modificados e introduzidos no mercado até chegar aos modernos e sofisticados compostos plásticos, resinas, náilon e policarbonatos, sempre em busca de um melhor design, de mais conforto, durabilidade, leveza e resistência.

Os primeiros óculos não tinham as hastes laterais e se apoiavam no nariz como os pince-nez, com uma ponte fixa e flexível que se prendia no nariz. Ou os lorgnon, que tinham uma haste lateral inferior para segurar com a mão.

No princípio a fixação era feita por cordéis ou fitas de couro amarradas atrás da cabeça ou passando por trás das orelhas pendendo sobre o peito com um contrapeso. Depois dos amarrilhos surgiram as hastes laterais com molas espirais pressionando as têmporas para segurar os óculos na posição. Em 1730 foram inventadas as hastes laterais rígidas para se apoiar nas orelhas e posteriormente apareceram as hastes laterais com angulação para melhor apoio e fixação no dorso do pavilhão auditivo. Mais tarde, em 1752, foram inventadas em Londres as hastes laterais dobráveis, facilitando bastante o manejo pelos usuários.

Lentes: do vidro ao telescópio

As primeiras lentes eram fabricadas por artífices muito habilidosos que poliam e lapidavam os cristais de quartzo ou pedras semi preciosas relativamente mais transparentes, tais como o topázio ou berilo, mas a tecnologia era primitiva e os óculos ficavam toscos e rudimentares. O desenvolvimento das lentes em maior escala e com melhor qualidade só foi possível com o desenvolvimento das lentes de vidro com boa qualidade óptica.
A existência do vidro remonta aos tempos pré-cristãos e existem registros históricos afirmando que no Egito, em 1500 a.C., já existia uma bem estabelecida indústria vidreira. Segundo a tradição acreditava-se que esse conhecimento vinha do sábio alquimista Hermes Trimegisto.

O encontro de vidro nas ruínas de Pompéia confirmou que o fabrico de vidro já era bem estabelecido antes do ano 79 a.D., quando houve a grande erupção do Vesúvio.

O vidro foi aperfeiçoado para ser usado como lente de óculos em Veneza no início do século 14, ficando famosas as lentes produzidas na Oficina Vidreira de Murano. Mais tarde, no século 16, floresceu na Alemanha uma indústria de produção de lentes de cristal de vidro de muito boa qualidade, particularmente na cidade de Nuremberg, que se tornou um centro de alta reputação.

A invenção do telescópio por Galileu em 1608 foi um estímulo muito grande para o desenvolvimento de lentes de alta qualidade óptica.

No início os óculos, toscos e rudimentares, eram vendidos por toda a Europa por mascates ambulantes. As pessoas experimentavam os óculos já prontos e escolhiam os que mais se aproximavam de suas necessidades. De fato, a prática de permitir ao cliente a escolha dos óculos continuou até o início deste século e, por incrível que pareça, com toda a alta sofisticação dos aparelhos de refração computadorizados, ainda continua viva até hoje. Mas com o aperfeiçoamento da tecnologia para a produção de lentes de alta qualidade, aos poucos essa atividade passou a ser organizada em corporações profissionais de alta reputação, até que, em 1628, na Inglaterra, Charles I outorgou uma carta real a Espectaclemakers Company, oficializando a profissão.

Mario Luis de Camargo é médico e diretor clínico do Centro de Saúde Escola da Faculdade de Saúde Pública da USP

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